acordei me perguntando sobre as misérias do mundo. sim, tpm e inferno astral juntos, dá nisso. pois é.
assinei a melhor revista do país logo de manhã cedo. e foram os 100 reais mais bem gastos dos ultimos tempos. porque os deslizamentos em niterói andam me dando a forte impressão de que a coisa tá feia por aqui. e a le monde diplomatique, a única revista séria do país, com nome em francês não por acasao!, é a discussão, em profundidade, das misérias do mundo.
o corpo inchado, retendo líquido, as fotos de antigamente na parede ao lado da mesa onde sento, em dias inspirados, para ler sobre uma itália destruída por uma guerra. uma itália que parece cada vez mais mais impossível de ser recuperada. e fui arrebatada pela sensação de que o mundo anda bem impossível de ser recuperado. uma vez fascista, sempre fascista. fascista sempre ela há de ser.
e que diferença pode haver entre uma itália meridional – sul- pobre, sobre o poder da máfia, desigual, ensolarada, com solo muito seco, refém das intempéries naturais e da boa vontade dos coronéis – que lá não se chama assim, mas é o mesminho personagem – e a juatama? juatama, aos desavisados, é uma pequena cidade do certão central do ceará. a pobreza que conheço mais de perto. e que me acompanha em todas as leituras que faço sobre essa itália sem solução.
que diferença há entre pobrezas? a das favelas do rio de janeiro, as que desmoronam em niterói, o haiti, a juatama, a periferia de napoles ou o ‘entroterra’ da sicilia, há alguma diferença?
quando estive na sicilia, ilha no sul da itália, no ano de 2007, tive a plena certeza de que o motivo pelo qual os italianos adoram o brasil é de fato a péssima idéia que fazem de si mesmo. ou seja, se a itália conseguisse gostar de si mesma, um italiano nunca viria ao brasil, porque na sicilia ele acha exatamente o que vem buscar aqui: sol, belas praias, mulatas desfavorecidas prontas a favores escusos, deseducação, lixo nas ruas, história abandonada, prédios não tombados desmoronando, alegria, boa música, vida noturna agitada. e melhor que isso: na língua deles e bem mais barato.
mas a europa tem o fetiche do ‘éntico’, que quem mora em paris hoje deve confirmar, virou moda de fato. ser um europeu legal é achar que a europa tem problemas e ter muita abertura e curiosidade com tudo o que está fora da europa. a itália, que estruturalmente não pode gostar de si mesma, é ainda pior. legal é o exótico, a comida tailandesa ou chinesa (mais de 80 % dos restaurantes de comida estrangeira na itália são chinesese!), a garota do leste europeu, a música brasileira, o escritor ungaro, as férias na croácia.
e, voltando ao ponto. que diferença pode haver entre pobrezas? há alguma diferença entre riquezas? o milionários brasileiro e o americano? entre riquezas tendo a achar que a coisa é bem diferente, mas é muito assunto para o mesmo post. mas entre pobreza sinto que a coisa é toda a mesma: pobreza. falta de pespectiva e de acesso (não só a bens de consumo como o governo lula parece entender achando que ajudar os pobres é fazer com que todos tenham geladeira – pra colocar dentro coca-cola – e televisão, para ver o big brother). e o capitalismo é isso, achar que somos livres porque temos a escolha de comer onde quisermos, e ele oferece a um preço razoável o big mac ou o bob’s: até me emociono com tamanha escolha.
sei não. sei que alguém vai dizer que o mundo sempre teve problemas, sempre teve guerras e sempre foi assim. e a quem estava vivo sempre pareceu que estivesse piorando. é, pois é.
mas como diria chico xavier: se o avião está caindo, e eu vou morrer, me desculpa, mas não quero me controlar [só porque sei que a morte não é o fim de nada], eu quero é gritar: jesus maria josé me ajude, eu não quero morrer!!!!!