Pular navegação

Arquivo da tag: filosofia de botequim

tem épocas da vida em que a gente fica absorvido por um certo dogmatismo pragmático. às vezes útil, trabalha, trabalha, não pensa mais em nada. às vezes necessário, para bancar a vida, tem momentos em que o dinheiro manda trazer a felicidade de bandeja. às vezes impossível de negar, o cara precisa, você disse que faria, não dá pra largar agora.

e assim passaram-se março e abril. daqui a pouco chega a copa do mundo. e o cara que disse que queria namorar até a copa talvez se veja numa relação que passou rápido demais. porque tá passando. você tá envelhecendo, eu também, e meus óvulos também. ele também. e a namorada eleita até a copa, também. e aí vai chegar a copa, o semestre vai acabar, a cidade e o país vão parar e quem sabe eu vou voltar a ter tempo de escrever post inúteis no meu caro blog de quem morro de saudades!

acordei me perguntando sobre as misérias do mundo. sim, tpm e inferno astral juntos, dá nisso. pois é.

assinei a melhor revista do país logo de manhã cedo. e foram os 100 reais mais bem gastos dos ultimos tempos. porque os deslizamentos em niterói andam me dando a forte impressão de que a coisa tá feia por aqui. e a le monde diplomatique, a única revista séria do país, com nome em francês não por acasao!, é a discussão, em profundidade, das misérias do mundo.

o corpo inchado, retendo líquido, as fotos de antigamente na parede ao lado da mesa onde sento, em dias inspirados, para ler sobre uma itália destruída por uma guerra. uma itália que parece cada vez mais mais impossível de ser recuperada. e fui arrebatada pela sensação de que o mundo anda bem impossível de ser recuperado. uma vez fascista, sempre fascista. fascista sempre ela há de ser.

e que diferença pode haver entre uma itália meridional – sul- pobre, sobre o poder da máfia, desigual, ensolarada, com solo muito seco, refém das intempéries naturais e da boa vontade dos coronéis – que lá não se chama assim, mas é o mesminho personagem – e a juatama? juatama, aos desavisados, é uma pequena cidade do certão central do ceará. a pobreza que conheço mais de perto. e que me acompanha em todas as leituras que faço sobre essa itália sem solução.

que diferença há entre pobrezas? a das favelas do rio de janeiro, as que desmoronam em niterói, o haiti, a juatama, a periferia de napoles ou o ‘entroterra’ da sicilia, há alguma diferença?

quando estive na sicilia, ilha no sul da itália, no ano de 2007, tive a plena certeza de que o motivo pelo qual os italianos adoram o brasil é de fato a péssima idéia que fazem de si mesmo. ou seja, se a itália conseguisse gostar de si mesma, um italiano nunca viria ao brasil, porque na sicilia ele acha exatamente o que vem buscar aqui: sol, belas praias, mulatas desfavorecidas prontas a favores escusos, deseducação, lixo nas ruas, história abandonada, prédios não tombados desmoronando, alegria, boa música, vida noturna agitada. e melhor que isso: na língua deles e bem mais barato.

mas a europa tem o fetiche do ‘éntico’, que quem mora em paris hoje deve confirmar, virou moda de fato. ser um europeu legal é achar que a europa tem problemas e ter muita abertura e curiosidade com tudo o que está fora da europa. a itália, que estruturalmente não pode gostar de si mesma, é ainda pior. legal é o exótico, a comida tailandesa ou chinesa (mais de 80 % dos restaurantes de comida estrangeira na itália são chinesese!), a garota do leste europeu, a música brasileira, o escritor ungaro, as férias na croácia.

e, voltando ao ponto. que diferença pode haver entre pobrezas? há alguma diferença entre riquezas? o milionários brasileiro e o americano? entre riquezas tendo a achar que a coisa é bem diferente, mas é muito assunto para o mesmo post. mas entre pobreza sinto que a coisa é toda a mesma: pobreza. falta de pespectiva e de acesso (não só a bens de consumo como o governo lula parece entender achando que ajudar os pobres é fazer com que todos tenham geladeira – pra colocar dentro coca-cola – e televisão, para ver o big brother). e o capitalismo é isso, achar que somos livres porque temos a escolha de comer onde quisermos, e ele oferece a um preço razoável o big mac ou o bob’s: até me emociono com tamanha escolha.

sei não. sei que alguém vai dizer que o mundo sempre teve problemas, sempre teve guerras e sempre foi assim. e a quem estava vivo sempre pareceu que estivesse piorando. é, pois é.

mas como diria chico xavier: se o avião está caindo, e eu vou morrer, me desculpa, mas não quero me controlar [só porque sei que a morte não é o fim de nada], eu quero é gritar: jesus maria josé me ajude, eu não quero morrer!!!!!

a questão não é novidade, e de tão antiga já nem devia ser questão. mas acontece que os meninos e meninas da minha geração e classe social (porque agora resolvi chamar de meu os argumentos materialista ao invez de amenizá-los mascarando com falso politicamente correto) parecem mesmo às voltas com ela.

a questão aqui não é de gênero. quer dizer, nem toda mulher quer casar, nem todo homem quer ficar solteiro. e todo generalização é tão boba quanto a questão. mas a inquietação nasce de uma sensação estranha de acompanhar de perto casos paradigmaticos e repetitivos, será que há um sintoma no ar?

lembro também de um jornalista perguntando a maria bethania, porque um cd sobre o amor? e ela, dotada das melhores respostas do universo, às gargalhadas: por que? você acha que o ser humano tem algum outro problema/ assunto na vida? (não lembro exatamente a resposta, mas lembro que era esse o efeito).

o amor. amar e ser amado. ficar sozinho se sentindo amado. amor que degringola, amor que começa, amor que acaba. amor que dói, amor que trai, amor que diz, amor que cala, amor que dá e amor que passa, amor de verão, amor de viagem, amor de academia, amor de mãe, amor de irmão – e um dia ainda pretendo escrever sobre as subjetividades desse último tipo de amor-.

o amor. nenhuma novidade: nada parece fácil. mas será que o mundo deve mesmo ser dividido entre os casados e os solteiros? ou há características mais relevantes, como éticos, picaretas, simpáticos, ciumentos, irritantes, sinceros, recalcados -socorrrrro!-, que batalham pra tentar se conhecer e se aceitar – e se for bom nisso, quem sabe até melhorar -, atenciosos, escrotos, ladrão, caloteiro, amorosos, delicados.

há tanta coisa mais importante para se compartilhar do que a categoria casado e solteiro, jesus. pelo menos eu acho.

e pra quê, então, fazer o mundo parecer uma grande guerra entre os uns e os outros?

ok, é bem verdade que os solteiros têm um pique absurdo de noitadas e farras e que os casados às vezes têm conversas e assuntos meio chatos, mas se eu era teu amigo antes, e a gente fazia muitas coisas juntos, precisa parar de fazer agora porque você é solteira/o e eu sou casada/o? ou a gente pode marcar um meio termo, exemplo, irmos juntos às festas em que os casados vão – afinal, se até deus tem que dançar pra ser real, imagine eu?! -, ou irmos jantar numa terça-feira à noite?

não pode. você é casado, eu sou solteiro. sai pra lá.  parece que o mundo nem percebe que se afasta. que não se dedica, que fica looonge. e que o facebook não é tão relevante assim, e que o twitter não diz nada que um abraço possa dizer, ou que o big brother existe para o marchandising do ponto frio e nada mais.

aí, quem sofre de uma doeça chamada profundidade, se olha em volta, pensa nos amigos que tem, pensa no tempo que perde fazendo qualquer coisa que nao seja dando ou recebendo afeto. e acha que tudo faz bem pouco sentido se não for cercado dele: o amor. seja casado seja solteiro. solteiro também ama. e como ama.

1. com a coisa do tempo do ‘muito’, ele até concorda:

casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo. a mais linda, a mais amada, respeitada, cuidada. a mais bem comida. e a pessoa mais namorada do mundo e a mais casada. e a mais festas, viagens, jantares. casa comigo que te faço a pessoa mais realizada profissionalmente. e a mais grávida e a mais mãe. e a pessoa mais primeiras discussões. a pessoa mais novas brigas e as discussões de sempre. casa comigo que te faço a pessoa mais separada do mundo. te faço a pessoa mais solitária com filho para criar do mundo. a pessoa mais foi ao fundo do poço e dá a volta por cima de todas. a mais reconstruiu sua vida. a mais conheceu uma nova pessoa, a mais se apaixonou novamente. casa comigo que te faço a pessoa mais casa comigo que te faço a pessoa mais casa comigo que te faço a pessoa mais feliz do mundo‘ In: Regurgitofagia

2. com a coisa da ‘sinceridade’, nem tanto:

‘ Bobeou tem alguém dizendo que é sincero. Foda-se. Seja elegante, não sincero. Ok que elegante e sincero é o ápice da elegância, mas,’
8:34 PM Sep 18th

‘Acho gentil, justo. É uma reciprocidade sincera, apesar de estar de saco cheio desse papo de sinceridade… Quem quer saber de gente sincera?’
8:33 PM Sep 18th from web

In: http://twitter.com/michelmelamed

p.s. a ordem cronológica foi: eu escrevi o post. passeando a trabalho achei as opiniões dele. não resisti.

parece que quando nasci um anjo torto me disse: vai menina, ser sincera na vida.

percebi isso claramente no mise en scene brasiliense. algumas opiniões comunistas, nenhuma vontade de apertar a mão daquele senhor destinto e acusado de tanta picaretagem. nenhuma. nenhum deslumbre. acompanhava o ritmo do meu velho (o pai) e ia cheia da juatama no coração passeando por aqueles tapetes aveludados, aqueles sorrisos que provavelmente têm pesadelo com meu rosto de madrugada.

ainda não sei se me afasto de conhecidos, se perco meios-amigos, ou se eu sou mesmo assim, mas gosto do que sou: ou é amigo, ou ok. sem facebook, sem orkut, vamos vivendo em poucos, que nesse pouco a vida está (pra mim). no muito está tudo o que me deixa infeliz: a indelicadeza, o esquecimento, a não intimidade.

mas há uma experiência do pouco que não é do meu tempo. vivo no tempo do muito: muito email, muita oferta, muito amigo (3.498), muito pouco tempo, muito trabalho, muita conta, muito pouco dinheiro. e até a escolha do pouco, custa muito. porque parece que escolher o pouco diminui quem escolhe. e esse alguém fica pouco também.

o pensamento é diário ao acordar: que eu recupere a fé no pouco. no devagar. no leve. no sutil. no pouco trabalho. no pouco mais de dinheiro. no pouco menos de conta. no pouco mais de tempo. no pouco amigo, bem íntimo.

e todo o material em órbita ao redor desse círculo, pode continuar lá (ou mais pra lá): que a minha órbita é assim, é essa. é meio solitária às vezes. mas acredito nela.

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.