de mariana melo
“nos já fomos doze. já brincamos todos juntos, já brincamos em frações, já brincamos uns contra os outros. já brigamos por quinze minutos, umas poucas horas, nunca mais que isso. já passamos férias na serra, sob as regras rígidas dele, sob a luz e o comando dela, jogando king de noite na mesa redonda da sala. já tivemos que fazer silêncio depois do almoço pra que eles dormissem. já fugimos pra tomar banho de piscina quando ainda tinha muita comida na barriga. já encontramos urucum na mata, nos pintamos de índio, sujamos os tênis novos comprados pro ano letivo, levamos bronca. já arrancamos um pedaço da parede, quase todos na rede, a balançar, balançar, balançar, numa tarde sem fim de aventuras. já nos perdemos pela vida, nos perdemos uns dos outros. fomos morar em países do mundo, estivemos longe, passamos meses sem contato. só havia sempre a certeza: um dia nos reencontraríamos.
ainda somos doze. apesar dos materialistas que nos negam a fé, que não crêem eles mesmos no que está por vir. não, não podemos nos reunir em doze, nosso todo sempre falta um pedaço. não tiramos mais a foto de todos – não dá. ainda nos reunimos, ainda brincamos todos juntos, brincamos em frações. temos adições, nos agregamos. não passamos férias na serra em grupos grandes – não cabemos mais. nos encontramos todos na fazenda, na juatama, sob as regras não tão rígidas do filho deles, que, de noite, toca violão – cantamos todos – que bebe cachaça com todo mundo, que conta histórias, partilha. de dia, nos reunimos ao redor da geração que nos substituirá um dia: reeditamos as brincadeiras e, como eles fizeram um dia, preparamos o terreno pra que sejam amigos, que se queiram bem como nós, os doze, nos queremos. elas, também filhas deles, cuidam de tudo e todos, supervisionam. saímos daqueles dias na fazenda todos mais fortes e partimos, a nos espalhar pelo mundo. no fim, só há sempre uma certeza: um dia nos reencontraremos.”