o brasil é uma país estranho, a frança também e a itália então, nem se fala. mas nessa estranheza toda, ando me ressentindo da relação que o rio de janeiro (cidade muuito estranha) alimenta com as coisas francesas e da que não alimenta com as italianas:
tudo o que é francês é chique, tudo o que é italiano é cafona.
um ‘q’ que verdade devo reconhecer no estereótipo dos dois países: na frança tudo parece meio refinado, as mulheres são de belezas clássicas, peles de pêssego, os homens alimentam aquele personagem meio intelectual sujinho, a H&M, que é a C&A francesa, é das lojas mais bonitinhas que já vi, a tradição folosófica é sensacional, e mesmo com aquela fonética surreal, a língua francesa é de fato muito sutil, para ser dita em voz baixa; na itália é tudo uma grande bagunça (a começar pelo primeiro ministro), as mulheres, de beleza mais popozuda, exageram no figurino e se perdem nos excessos beirando a vulgaridade, os homens heterosexuais (!) também fazem as sobrancelhas e se depilam no verão (no comment), não existe uma H&M porque a PRADA, a GUCCI, a FIORUCCI, o ARMANI e sei lá mais quantos mil estilistas dizem que bonito é só o que eles fazem, desde o renascimento não se sabe muito bem o que a itália produziu de pensamento, e com aquela fonética presente dos deuses, é uma língua aberta e escancarada para quem quiser gritar.
ainda nos esteriótipos vale ressaltar que itália e frança se odeiam e, digam o que disserem, nenhuma copa do mundo foi e será mais feliz do que a de 2006: ganhar da frança com expulsão do zidane num ato brutal: ahhh, che meraviglia!
mas no dia-a-dia os esteriótipos cansam! e embora eu saiba que existe uma motivo histórico profundo na relação do rio de janeiro com a frança – não vou aprofundar aqui, mas é fato sabido – e saiba também da relação bem mais recente dos turistas italianos com as prostitutas cariocas, não é fácil viver em meio ao que tudo isso provoca: seria bem mais fácil e bem menos saudoso se meu coração não fosse metade verde-bianco-rosso, seria bem menos solitário se não fosse fato que certo tipo de carioca gosta da itália e certo outro gosta da frança.
além disso, acredito piamente no ditado: ‘as uvas francesas não são as melhores, mas são as que mais sabem se vender.’
e por isso morro de pena que um filminho bobo, francês, esteja sempre com a sala lotada e um genial filme italiano nunca tenha ninguém; que a genial música italiana contemporânea seja conhecida só na itália (tenho uma tese complexa sobre isso que não cabe aqui) e que uma música francesa folclórica, no rio de janeiro, pareça legal; que da sensacional literatura italiana só se conheça italo calvino e da francesa até a mais ingênua experimentação; que quando preciso que meus alunos entendam uma preposição – que só existe em francês e em italiano – se digo em francês todo mundo entende, se explico mil vezes em italiano continua vago; que num jornal carioca esteja escrito que jean rouche inventou a tomada direta de som para o cinema e que o cinema novo brasileiro só foi possível por causa dele, muito mais do que pela nouvelle vague (essas pessoas são loucas!) e que nessas horas nenhum bocó que entende de cinema italiano levante a mão e diga que nada, nadinha de tudo isso (rouche inclusive) teria sido possível sem rossellini- de sicca- zavattini e que não à toa glauber rocha fez três filmes na itália, em italiano.
e principalmente, morro de pena que o coitado do meu chefe entre todo santo dia num taxi e diga: ‘sim, o consulado da itália, por favor’. ‘é… senhor… me desculpe… fica onde mesmo?!’ ‘ao lado do consulado da frança’. ‘ah, pois não senhor’.