não sei se todo mundo é assim:
vai dando uma angústia, que eu nem duvido que possa não vir de algum motivo bobo, alguém que esbarrou em mim na rua, o colega de trabalho com a piada incoveniente, o trocador do onibus que num dia ruim comete alguma sutil indelicadeza. tenho sempre a certeza de que o motivo é esse.
o segundo sintoma é crise existencial: consequencia obvia por achar que o problema é o trocador de ônibus ou o colega de trabalho, a primeira idéia que tenho é mudar de emprego (porque trabalhar nesse ambiente? porque aguentar qualquer mala? porque ganhar pouco e não poder ter carro? evitando assim faltas de gentilezas dos trocadores de ônibus, que trabalham em contexto bem pior que o meu, muito mais horas do que eu (atualmente talvez não, mas vale o sentido do argumento), com menos prazer do que eu, por muito menos do que eu.) o passo seguinte é: mas porque morar num país em que as pessoas vivem em condições assim precárias, sendo que eu nunca consigo sair impune desse choque diário com essa verdade? vou embora, sim, em meio minuto já fiz as malas, para a Inglaterra – sim, porque nessas horas a Itália não oferece alento – .
aí eu choro, numa cena boba duma série que nem assisto ou numa música cuja letra não conheço, mas me transporta a alguma saudade ou contemplação ou plenitude. e é sempre ele, o choro, que me leva ao que de fato estava incomodando: aí eu entendo tudo: nem trocador de ônibus, nem miséria brasileira, nem excesso de estranheza no mundo, nem nada: plim. a ficha caí. por isso não queria ir trabalhar, por isso ando irritada, chorosa, com epifanias e desesperos, com medos e angustias, com saudades e lembranças, sem vontade de dedicar nenhuma energia a nada: nem a ninguém:
hoje é dia 2 de novembro, dia de finados.
Um Comentário
agora sou eu que digo: to aqui. e te amo muito, muito, muito.